sábado, setembro 16, 2006


Site specific e interatividade no Western
Silvia Paes Barreto


O prédio da Western foi ocupado por artistas. Fato. Porém, essa ocupação ocorreu de formas diversas e, assim, observei em que os espaços diferiam uns dos outros, destacando-se para mim aqueles em que houve uma singular criação.

A própria tomada de um prédio em desuso é uma ação de intervenção urbana coletiva com forte poder de significação, no sentido de que impõe ao debate público questões acerca dos usos e padrões de ocupação do solo, fazendo-nos pensar em formas mais duradouras de recuperação da vitalidade daquela área, para além do incipiente embelezamento superficial das fachadas. Chamar a atenção para uma grande e bela área desocupada no centro histórico da cidade trouxe, ao menos para mim e, espero, aos artistas participantes, um alerta para o amplo espectro de questões culturais, históricas e econômicas que compõe a natureza de uma cidade.

A organização do SPA abriu o prédio para que artistas propusessem seus modos de uso. Dentre a maioria que optou por fazê-lo de modo convencional, utilizando os cômodos da edificação para expor o resultado de ações ocorridas fora dali, Marcelo Silveira, Alice Vinagre, bem como Camila Mello e Manuela Eichner, executaram formas mais elaboradas de intervenção.

O espaço ocupado por Alice Vinagre prima pela composição formal, criando um diálogo intenso entre as paredes brancas com janelas da sala, e o tapete de carvão e sal grosso, contrastantes, num desenho orgânico. A textura criada no piso reverbera as imperfeições da parede, chamando a atenção para todo o espaço que vibra, numa composição que não poderá ser repetida em outro lugar.

Camila Mello e Manuela Eichner, dentre diversas ações, propuseram morar nos cômodos por elas ocupados, durante sua passagem pela cidade. Interferiram nas paredes das salas e na organização ordinária de um local para se estar. Abordaram, mesmo que de modo literal, os modos de uso do espaço pelo artista, mas, de alguma forma, comentaram também aquelas questões citadinas, as possibilidades de uso da edificação, inclusive como moradia.

Marcelo Silveira condensou as propostas de intervenção e usufruto do espaço. Inventou uma residência artística em sua sala. Dispôs-se a ir todos os dias ao edifício, incorporando a cada visita novos elementos que trazia com ele ou eram interferência dos visitantes. Uma convidativa rede, que servia mesmo ao descanso, atraía os que estavam por ali. Aquela circunstância particular a que me referi acima encontrou aqui sua melhor tradução. Além do genuíno tensionamento dos elementos arranjados naquele espaço, o propósito interativo __ de se postar à conversa, ao encontro __ tornava irresistível a sua “estação”. Até um “livro-caixa-de-artista” o acompanhava, servindo à curiosidade dos mais próximos. Utilizando alguns dos materiais recorrentes em sua obra, tais quais o couro e o vidro, Marcelo Silveira logrou criar um ambiente em que, além de tornar mais complexa a percepção espacial, oferecia ao visitante a imersão naquele mundo próprio, por entre as suas proposições poéticas. As linhas de couro carregadas de afeto __ a cada uma correspondia um nome escrito na parede __ que atravessavam a sala, morriam no alto e ressurgiam em outra face, ressoavam o que estava sutilmente escrito sobre a parede azulejada: continuar, continuar, continuar...

Continuidade e ruptura também nos tubos delgados de vidro, encontrados num refugo, e dispostos transversalmente na sala.

Foi nesse ambiente que conheci a história do Sr. Liêdo, que franqueou ao artista o acesso a sua ampla coleção de manuais[1]. Marcelo transcreveu, de um manual do começo do século passado, um código de cores que era usado para definir a hora de um encontro às escondidas, por meio de combinação de flores diversas. Um código para viabilizar encontros, bela metáfora às vicissitudes da vida, o contínuo rearranjo das possibilidades, as passagens contíguas e os impedimentos, os acertos e desacertos, o fim e o recomeço, as estações...

Em outros ambientes destacaram-se trabalhos de apelo à participação ativa do visitante, dos quais destaco o Neutralidade, do Re:combo. Um grande tabuleiro fixado ao chão (de modo a ser percorrido com o corpo todo) e as regras de um jogo coletivo fixadas na parede, tudo para destacar a ameaça à neutralidade da rede. Esta neutralidade seria “a possibilidade para todos os que têm acesso à rede, de produzir conhecimento e trocar informações livremente em pé de igualdade” e agora estaria ameaçada pelos interesses comerciais das grandes corporações controladoras dos maiores provedores de acesso à Internet. Alertando para o possível fim do potencial democratizador da rede, o Re:combo, coerente com sua proposta de criação coletiva, que assume e tira proveito da porosidade entre as esferas da arte e da política, não teme ser panfletário, disponibilizando inclusive um folheto com informações elucidativas sobre o tema.

Certa interatividade em Frontaria, de Júnior Pimenta, alcançou-me nas caixas de ovo coladas pela fachada do prédio. Digo certa interatividade porque um maior número delas, sem dúvida, traria melhores resultados. Em todo caso, valeu pela alternância de cores que, a depender do ponto de visada, variavam, movimentando assim o prédio.

Também teve o jogo do “não vale”, como posso explicar... na regrinha do café com leite: meter a mão em latões que, ao invés de lixo de verdade, só pseudo-sujeiras, lixo de mentirinha feito de ráfia colorida... O trabalho Lixo, de Viviane Duarte, realmente não me convenceu.

Enfim, teve de tudo, mas o bom mesmo é ter tido!
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[1] Manuais de instrução, de qualquer tipo, foram incorporados recentemente à poética do artista.

2 comentários:

Simone Cruz disse...

Decepção. E só não foi total por causa do trabalho da paulistana Kika (o sobrenome me foge à memória agora...), "Face a face", onde se podia ver que a artista tratou com seriedade a proposta da exposição. Depois de ver tanto trabalho inconsistente, foi um alívio poder entrar na sala fechada, como em um cinema, e ouvir os depoimentos sobre o amor, enquanto observava as imagens dos entrevistados. Kika colheu os depoimentos ali mesmo, no prédio da Western, entre os visitantes que se dispuseram a falar sobre esse sentimento tão mal entendido. O jogo da internet, do Re:combo, também é interesante. Apesar de político, não é chato e panfletário. Muito pelo contrário, é divertido e convidativo à interação. Infelizmente, tem artista que confundem algumas coisas. Costuma-se reclamar de curadorias e critérios de seleções, mas, quando finalmente uma instituição abre um espaço e o deixa livre para que artistas possam se expressar - como foi o caso do prédio que, além dos artistas selecionados, permitiu que outros usassem o espaço - o pessoal fica achando que vale tudo. Que vale expor qualquer coisa, de qualquer jeito. O fato do prédio ser antigo e estar em tuínas não significa que os trabalhos artísticos tenham que ser também. Pendurar fios cruzando uma sala ou colar papéis pelas paredes, sem nehum cuidado? Vi trabalhos ali que nem de longe se parecem com arte comtemporânea: pinturas naifes? E fotos de meninos de rua (já tão batidas, não acham?) ficam melhor em exposições de fotojornalistas. Os trabalhos de Kika e do Re:combo estavam no térreo. Arrependi-me de ter subido tanta escada...

Ana Luisa Lima disse...

Também achei que alguns trabalhos poderiam ter um cuidado melhor na apresentação...

Beijos, Simone.

Fico feliz de você estar usando este espaço para expressar-se criticamente.